domingo, 4 de outubro de 2009

Oxalá Oxalá

Oxalá Oxalá

Abra meus olhos num dia!



Quero sonhar com o batuque de um domingo

Quero ouvir o atabaque sozinho

Sentindo o suor em labor


Oxalá Oxalá

Abra meus braços num dia!



Quero sonhar com o batuque amigo

Quero ouvir o seu cantar soltinho

Sentindo o pulsar de seu braço esplendor


Oxalá Oxalá

Abra meu peito num dia!



Quero sonhar com o batuque alegrado

Quero ouvir o teu cantar sincopado

Sentindo o samba num pé de dor


Oxalá Oxalá

Abra minhas pernas num dia!



Quero parir um batuque menino

Quero sorrir vendo o filho da tribo

Sentindo o negro de meu ventre fervor

Açai

Sou puta

Eu sei

Sempre soube


De galho em galho

galho os chifres alheios

Produzo as dores nos peitos

E não me arrependo depois


Sempre soube

que esse amor não me caberia

e que minha vida assim seria

que não sou a fina flor.


No começo

sonhava com uma vida mansa

bonequinhos esperança

e seu lindo olhar sutil


Mas com o tempo

transformei-me numa fera alada

Não espero a demorada alçada

pois tenho medo da dor

............................

Agasalhei-me em colos vis

Debrucei-me em braços viris

Mas afastei-me nos espaços mil


Não quero a dor

Também não quero o amor

Então, por favor, entenda

que a fina flor murchou.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Voz Negra

Aos meus cabelos que crescem...

Tentaram...e como tentaram...mas a voz negra não calou.

Ela aludiu nas trevas
nos tambores abafados
Achatados nas madeiras frias
das senzalas dos cafés

Dos Tambus firmes
Dos Guingengues rápidos
Das violas que soavam
no ritmo do bamba

Foi assim ele criado
nas caladas das fazendas
O grito firme de um negro
Solitude de uma fé

Formou-se o Samba Paulista
desconhecido de muita gente
Os batuques resistiram
e formaram nossa gente

Das danças prazerosas
a Umbigada surgiu
Os pares celebravam a vida
E o branco se aturdiu

Tentaram...e como tentaram...mas a voz negra não cala.

Do Jongo, da Capoeira e do Lenço
Todas as manifestações renasciam
Salvando aquele povo negro
que jamais esqueceria

Oh, minha África, minha África querida
Canto aqui na terra nova
A minha ode à revelia

São Paulo cresce...
Cresce aqui no meu coração
Trago a ela minha vida
contada por uma unção

O povo banto já deixou plantado
a semente da tradição
O que fazemos está latente
É o nosso Samba-Canção

Tentaram...e como tentaram...mas a voz negra grita!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Política não tem cor, minha filha!

A cada dia descobrem mais uma do nosso Excelentíssimo Senhor José Sarney...

Porém, cansada de ouvir sobre a corrupção branca, fui procurar sobre os nossos representantes negros atuais. Deparei-me com uma notícia nada admirável:

Netinho de Paula, agora vereador de São Paulo (observação importante: um dos mais votados), foi cotado como o que mais se ausentou na Câmara Municipal de São Paulo.

Aí, Exu diz:

- Oh, preto safado!

E eu retruco:

- Mas, vem cá. Porque você não diz pro Sarney "Oh branco safado!"

E ele finaliza:

- Ué...não dá no mesmo não...

Fiquei lembrando de uma conversa com uma amiga que dizia que deveríamos xingar as pessoas usando a palavra "branco" de forma pejorativa - Seu branco! Assim como o fazem com o "negro" ou "preto".

Mas como um substantivo (ou adjetivo - porque a palavra "branco" é carregada de sentidos que não condiz apenas com seu significado etmológico) que ainda hoje tem tanto valor, em diversas esferas, pode tornar-se depreciativo?

Será que se chegasse no Senado e gritasse pro Sarney "Seu branco!" ele entenderia tudo o que sinto por ele? Do jeito que a coisa anda, poderia até receber um "Obrigada" como resposta.

O fato é que Exu e eu decidimos que vamos deixar a política de lado, nesta discussão, já que, ela tem sua raça própria: Os desonestos.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A espera nunca alcança

Quem espera

leva rasteira

de bobeira

faceira

...........................


To no ponto de ônibus

To na fila do banco

To no partido político

To no movimento feminista

E espero, espero, espero...

E nada acontece neste mundo

É só deserto

É mato (mas não santo!)

.......................


Eh manhê, não diz pra eu parar

pra ficar sossegado

sossego é que nem pato n’água

boiando morto no rio!


Quero correr sem fronteira

sentir o ventinho no olho...

E se tropeçar

caio de cara

caio bonito

.......................


cê faz curativo, jurema?

terça-feira, 30 de junho de 2009

De Mari à Mariana

Não sei como aconteceu...

De início, chamava-se Mariana

Boca grande, peito enorme...enorme também eram os seus olhares diante de todos.

Das contradições que dizia em aula, me identifiquei.

Crescia em mim sua magia.

Não entendia sua fala, sua cor e seu ódio.

Também não entendia o seu amor, os seus filmes das sessões da tarde e suas frivolidades.

De peça em peça, formamos o nosso quebra-cabeça.

...............

De Mariana à Mari,

Construímos nossos portos!

Descobri que também tinha uma cor,
E era a mesma da dela

Descobri também que tinha cabelos,
E eram os mesmos dos dela

Descobri que tinha amor,
Mas será que ela soube disso?

O que será que ela descobriu de mim ou de si?

.....................


Transformou-me em amor e ódio, ao mesmo tempo.

Nos transformamos em uma só.

Nossos opostos nos satisfaziam.

E aprendi a amar uma mulher, aprendi a desejá-la.

E com o amor,
veio a posse...

E com a posse,
as neuroses...

E com as neuroses,
o tédio...

E com o tédio...
o esquecimento do nome

....................


De Mari à Mariana,
Agora estamos assim...

As almas gêmeas estão distantes
pelos pequenos defeitos que nos separaram....

Fugimos das terríveis personas de nossas vidas.

.........................


Sonho com peitos, com bocas e cores,
Tenho cabelos crespos que me impedem de sorrir.

De Mariana à Mari à Ma à nada...

E como dói esse nada!