sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Negritude e Literatura - A arte engajada

O conceito de Negritude dentro da criação literária e as transformações sociais


É sabido que a teoria literária define o que é um texto literário e o que é apenas um texto. Para muitos estudiosos, considerar uma obra como literatura vai além de bom texto. A Literatura, com L maiúsculo, considerada como cânone, deve ter uma série de características que a transforma para além do texto, tornando-se arte, a arte da palavra.

Recursos estilísticos rebuscados, novas informações que demonstram que o autor é também um grande pesquisador são apenas algumas das características que podem ser encontradas em muitos dos textos que hoje são considerados cânones literários.

Entretanto, o sucesso de um texto não depende apenas do mesmo, sendo bem escrito. Para que um texto possa chegar ao patamar literário, ele deve trazer algo de novo, transformador para a sociedade. Para Antônio Cândido (CANDIDO, [1975]2002), o externo (social) é mais um dos elementos que desempenha um papel na constituição de cada obra literária, tornando-se, portanto, interno.

No Brasil, temos diversos exemplos de publicações artísticas que desempenham, também, um papel social, denunciando os conflitos existentes, como o racismo, a discriminação, o sexismo e etc. Um dos grupos que hoje mais faz sucesso dentro desta vertente, a literatura engajada, é o grupo Quilombhoje e suas antologias poéticas intituladas Cadernos Negros.

Contudo, dentro dos estudos literários ainda é limitado o estudo destes tipos de correntes, ligando a literatura com a militância política. Na área acadêmica, ainda é latente a discussão de que a literatura não deve ser engajada, pois perderia o seu rebuscamento interno, o seu conteúdo artístico. Neste sentido, vemos estudos que relacionam a literatura junto ao engajamento político em outras áreas, voltadas para a educação, por exemplo.

A literatura como engajamento político não é algo que surgiu apenas nos movimentos emancipatórios brasileiros. O Brasil, aliás, hoje passa por esse momento, mas muitos países já passaram por isso há mais de meio século. E, para muitos deles, os casos eram tão particulares que não existia uma discussão que pudesse diferenciar literatura como arte de literatura como militância. Elas estavam unidas, na luta pela emancipação desses países. Os movimentos de
libertação e os processos emancipatórios em África podem ser um exemplo.

Para muitos estudiosos, a arte é consoante à situação social. E, toda produção artística se desenvolve a partir, também, da consciência social de seu criador. Por conta disso, muitos africanos e afro-descendentes perceberam que poderiam fazer uso da arte para demonstrar a força de sua consciência pela emancipação africana. O Pan-africanismo é um exemplo, pois nele estavam muitos artistas, que também eram ativistas políticos.

Um dos maiores exemplos certamente é Leopold Sedar Senghor, poeta e ativista político senegalês. Senghor fez uso de sua figura como um símbolo de luta pela emancipação africana. Fazendo parte da elite de africanos que viviam na França, a partir de seus estudos literários começou a compor poesias. Nelas, pode-se perceber um forte espírito político em busca de uma identidade africana, contrária a já estabelecida pelos poderes coloniais. Exemplo disso em um de seus versos:

Escuta sempre mais
as cousas que as pessoas.
Ouve a voz do fogo,
ouve a voz da água,
escuta a do vento em soluços.
É o respirar dos ancestrais.
Leurres et Lueurs”, Birago Diop, in Le Dialogue, p. 19.

A busca pela ancestralidade africana, a busca pelo o que foi ocultado nos livros, nos escritos, estando apenas no imaginário africano, pela oralidade, é a busca de um espírito de luta africano, contra a imposição cultural europeia.

Este espírito de luta encontrou como fonte de alimento o conceito de Negritude (négritude – original do francês) de outro poeta, Aimé Césaire, de Martinica, junto ao poeta europeu J.P Sartre. Este conceito tornou-se uma bandeira de luta para esses autores.

A negritude é a maneira de buscar novos valores, valores negros. É uma busca identitária real pela origem humana, desconstruindo os valores europeus, recebidos pelos tantos séculos de colonização. Negritude é a maneira própria de ver o mundo, conhecendo suas raízes, seu real passado histórico. É o despertar da beleza negra, suas qualidades e suas potencialidades.

Este conceito, iniciado por Segnhor e Césaire, entre as décadas de 30 e 40 na França, logo encontrou adeptos em vários países africanos, influenciando muitos nomes influentes que lutaram por suas emancipações contra as potências europeias.

Percebe-se, contudo, que a literatura engajada, mesmo criticada até os dias atuais pelos estudos literários, tem fundamental importância para o desenvolvimento de uma consciência política para uma mudança social. A literatura, assim como outras vertentes artísticas, tem um poder de cativar, pela beleza estética, ao mesmo tento em que faz os sujeitos refletirem sobre o que o fizeram ser cativados. Este é um dos melhores mecanismos para uma transformação social, pacífica e bela.
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Obs.: Este é um dos textos que escrevi para o curso de pós-graduação na UFSCar, intitulado: Educação para as relações étnico-raciais. Em nenhum momento tento afirmar que a literatura seja, estritamente, engajada ou política. Apenas levanto alguns reflexões, que surgiram a partir das leituras de textos sobre Leopold Senghor, comparando com os textos de escritores afro-descendentes brasileiros e o preconceito da academia em rotulá-los como fonte artística apenas para os estudos culturais e não para a teoria literária.
Larissa Lisboa

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Luizas, Canadás e o NADA dito

Ontem, conversando com o meu marido no almoço, deparei-me com uma pergunta:

- Você já viu a nova febre da internet? A Luiza?

Respondi que não, surpresa, porque não havia recebido email algum com o título Luiza. A TV estava ligada e eu nem precisei esperar para que ele me respondesse, pois o jornalista fez uma chamada em que dizia: Luiza volta do Canadá!

Quem é Luiza? Perguntei, já nervosa. Luiza Possi? Luiza Erundina? Luiza Mahin? Que Luiza é essa que eu nunca vi, ouvi falar? Alguma nova cantora, talvez? Uma best-seller, por que não? Não soube dizer. Ouvi a notícia e continuei sem entender. Mas, quem é Luiza? E o que o Canadá tem a ver com a minha vida? Seria alguma pessoa tão importante a ponto de veicular uma notícia em um jornal televisivo nacional?

Bem, esqueci o assunto, desliguei-me. Resolvi continuar a vida sem conhecer Luiza. Foi então que, recebi um email de um amigo com um vídeo interessantíssimo do SUS sobre seu programa contra as drogas e me deparo com um pequeno vídeo, ao canto direito da tela, intitulado: Luiza está no Canadá! Sim, eis que surge em minha vida Luiza, a Luiza que não conhecia. Não resisti e fui até ela...

O que vi, muitos de vocês já sabe, aliás, milhões, se não bilhões de vocês. O que vi foi simplesmente um grande NADA. Absolutamente NADA! E esses NADAS multiplicaram-se, telejornais comentaram sobre Luiza, anônimos fizeram paródias sobre Luiza, Luiza é a nova NADA do momento, seguida por milhões de pessoas.

E eu fico me perguntando, de mais quantos NADAS a nossa sociedade brasileira precisará para acordar da total ignorância e mediocridade? Quando acordaremos deste pesadelo do absoluto NADA: NADA a discutir, NADA a dizer, NADA a lutar, NADA a transformar?

domingo, 15 de janeiro de 2012

Janeiro

O ano acabou. O mundo desabou. Ano novo. Recomeço?

Nova vida? Vida nova? Vida mesma. Vida sempre. Sempre viva!

Vive, vive e não se vive. Sobrevive. Sobrevida. Sobre a vida. Ê vida!

La vie en Rose? La vie en vie.

Vida loka. Vida mansa. Vida mesma. Vida merda. Vida selva. Selvagem. Selvageria.

Risos, choros, cantos e sussurros. O ano passa...

Ao fim, os votos, os desejos, os ensejos, os adornos, os engodos.

E o que ganhamos, além da frustação de que não há nada de novo?

O relógio volta, o cíclico. A cabeça, para pensar sobre o novo. Mas, o relógio.... ele é cíclico!

O tempo continua, contínuo. Não parou. Não mudou. O desejo de mudança não existe para o tempo. Porque o tempo é sempre o tempo mesmo, o tempo em que estamos. E então, o recomeço é o avesso. O recomeço é apenas a continuidade de um começo.

E os votos? E os desejos? Eu quero, eu vou, eu serei...

Só nos restam os pronomes. Eu, mais do mesmo!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Recuperação paralela

"Era uma casa muito engraçada"


Vinícius de Moraes



"Era uma casa nada engraçada"


Renan, grupo Inquérito


O boletim chegou à suas mãos, cravado de 10. Apenas um 9 em ciências que não o deixava muito contente. Vai esperar a professora, para saber por que não foi um aluno 10 naquele bimestre.


Sorrisos para todo lado. A professora dá três tapinhas nas costas:


- Bom trabalho! Será um grande homem!


Os outros também o parabenizam, inclusive os outros adolescentes.

Tem um certo respeito dentro da casa. Os caras acabam não mexendo com ele, porque sabem que ele é diferente.

- Pô, deixa o cara, esse vai ser Doutor. É o que dizem.


Durante as aulas, olho atento, boa argumentação, afobação e impaciência. Precisa de atenção o tempo todo, como se para provar para si que é possível mudar.


Cada atividade nova, lá está ele, seja música, teatro, poesia, dança... Seu espírito artístico aflora menos que seu espírito por mudança, mas, o esforço é a marca de seu talento.


Sempre que alguma autoridade chega, e a casa necessita da maquiagem, lá está ele, a representar o impresentável, orgulho pelo processo, recuperação cumprida.


Depois de 8 meses, recuperação cumprida, orgulho no rosto, sorriso estampado, enche o peito e sai à vida. O Doutor o espera.


É recebido com certa alegria pelo pai, que já arrumou um emprego de servente para ele. Meio período, poderá continuar com os estudos. Ele sorri.


Vai até a escola indicada e a secretária diz que deverá esperar algumas semanas até sua matrícula chegar.


Algumas semanas? Pensou. Como vai estudar até lá?


Sorriu um pouco menos, mas não desanimou! Como havia trazido os cadernos e livros que ganhara da casa, resolveu começar a estudar sózinho, revisando os materiais.


Recebeu, no início, algumas ligações da casa. Muitas delas ainda o parabenizavam e mostravam muito interesse pelo seu novo emprego. Só ele que ficava um pouco encabulado em contar, já que todos diziam que ele seria um Doutor e até agora só sobravam pratos e talheres sujos dos Doutores em suas mãos.


A situação já tinha se normalizado. Via pouco o pai e os irmãos estavam sempre na rua. Cansado de ficar sózinho, foi à procura de alguns antigos amigos. A comoção foi grande.


Parceiro...


...................


O boletim chegou à suas mãos, cravado de 10. Apenas um 9 em biologia que não o deixava muito contente. Procuraria a professora, para saber por que não foi um aluno 10 nesse bimestre.


Sorrisos para todo o lado. A professora dá três tapinhas nas costas, mas não diz mais nada.



De que valem tantos 10?


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Do teu sangue

"Senhor, perdoai-os, porque eles não sabem o que fazem?"


O sangue corria por entre os dedos. A cada nova tentativa de fala do menino, ele voltava a cravar o punho avermelhado no pequeno rosto, desfigurando-o para, assim, silenciar o ato.

Quando tudo já estava calmo no andar de cima, pedi a um amigo uma toalha. Limpa a mão, enquanto olha para o corpo estendido ao chão, dizendo:

- Bandido...

Desce as escadas em passos firmes. E, como de súbito, ao topar com uma professora com os olhos arregalados no corredor, comprime o passo e sorri.

- Bom dia, querida! Está bonita hoje.

O sorriso é condescendente.

Ao fim do corredor, encontra a sala em que todos esperam por sua presença. Nela, vozes, pés correndo, canetas tocando a mesa, risos, abraços, afagos público, adestrados. Professores, coordenadores pedagógicos, assistentes sociais, psicólogos, seguranças e cozinheiros. Todos estão unidos para mais uma conversa sobre uma semana de eventos, onde farão palestras aos pais e alunos sobre a cultura de paz.

Ele senta-se ao lado de uma pequena professora, que o olha desconfiadamente. A psicóloga, a sua frente, o recebe com um largo sorrido, dizendo:

- Glória a Deus você chegou! Como demorava...

Todos riam.

Ao passo que a reunião seguia, com propostas de palestras sobre como conter a violência, apresentações musicais evangélicas e um grande café da manhã de integração, onde o coordenador dizia ser muito importante, pois os adolescentes precisavam confiar em todos, ele apenas segurava sua prancheta com muita força, enquanto olhava além do nada. Uma gota de sangue ainda derramava ao punho. Gota de cólera. Fechou as mãos entre as pernas e, novamente, voltou a sorrir.

A professora, que estava ao seu lado, não tirava os olhos nele. Porém, pouco disse a respeito de seu silêncio. Apenas escutava atenta às propostas, votava e dava sugestões do evento. A outra mulher, porém, cansada de se passar despercebida, esperou que vagasse um espaço entre ambos e sentou-se ao lado dele, a retirá-lo de seu tenebroso silêncio.

- Você tem filhos, Sidnei?

- Tenho. Tenho dois. Um menino e uma menina.

- Nossa... mas você é tão novo!

As outras pessoas, que estavam em volta, começaram a se interessar pelo assunto alheio. Trocaram algumas palavras sobre suas famílias, enquanto ele, apenas respondia secamente: Pai de família, marido há quinze, filhos de 14 e 9 anos.

Ouviu, então, uma pequena voz dizendo, ao fundo:

- Espero que estes não sofram com a medida...

Assustado, levantou as mãos como que a se render pela tragédia cometida. Quando procurou pela voz, não encontrou autoria. As pessoas a sua volta olharam espantadas. O que havia acontecido? Mas, logo o coordenador chegou com os bolinhos.

..................................

Depois de pouco mais de vinte e quatro horas trabalhadas, dobrando o serviço por uma falta, chega em casa exausto. Os dois filhos estão na sala, mas cada um está para si. A menina, mais velha, está tão entretida com as mensagens de celular, que nem percebe a presença do pai. O menino, no computador, com um grande fone de ouvido a cabeça, atrapalha até mesmo o som da TV ligada.

Ele ainda tenta um pequeno “oi” que sai abafado, mas sabe que é em vão. Enquanto passa pelos cômodos, sente-se como um estranho no ninho. Tudo em seu devido lugar, todos como deveriam estar, mas apenas ele, destoante de toda a mobília...

Joga a mochila no sofá e vai procurar a mulher, que está no quarto, terminando de se arrumar.

- Deixei todas as contas atrasadas ai em cima. Já são oito agora, fora as multas...

- Já sei de tudo isso. Poxa, mas é assim que você me recebe, depois de mais de um dia fora de casa?

- E você quer que eu te receba como? Falou com o seu chefe do atraso?

- Já disse pra você que meu chefe não tem nada a ver com isso. Firma tercerizada...

- É UMA BOSTA! É ISSO QUE É! Seu chefe nunca tem nada a ver... só não sei quem tem.

Agora, já são três meses consecutivos sem salário. A firma, que terceiriza o serviço para o Estado, não conseguiu cumprir o protocolo e agora cortou os salários de 15% dos funcionários, o que incluiu ele. Muitos deles já não vão ao serviço. Mas ele resolveu continuar, afinal, o que receberá quando tudo normalizar? E, além disso, o que há para se fazer em casa? Qual seria a sua função?

A mulher sai, despercebida, dizendo, já distante, que tinha feito um prato de comida que estava em cima do fogão. Mas ele não sente fome. Ele não senti nada. Apenas seu corpo, que dói.

Vai até o banheiro e vê que ainda há gotas de sangue em seu punho. Pega um frasco de álcool e começa a esfregar com voracidade as mãos. Tudo em vão. Quanto mais as esfrega, mais gostas de sangue surgem, algumas pequenas, outras grandes, coágulos de dor. Aos poucos, as gotas começam a se espalhar pelo braço. Ele se assusta e dá um grito!

Em poucos segundos, sua filha bate a porta.

- Tudo bem, pai?

Ele, ainda atordoado, diz:

- Não foi nada. Me cortei. Tudo bem, tudo bem...


Continua....

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O grande gênio


Aquele menino ali ao canto

cantando o silêncio

ali

baixinho...


Chamem aquele menino!


Aquele menino ali ao canto

de mãos cruzadas e peito fechado

olhar amargurado

lábios sombrios...


Chamem aquele menino!


Aquele menino ali ao canto

que não escuta e

não quer ser escutado

que não assovia

pra não ser chacoalhado


Chamem aquele menino!


Aquele menino ali ao canto

que tem no vermelho sua cor recortada

e em gritos alheios a flor já brotava

mas ninguém viu e ninguém quer ver


Chamem aquele menino!


Naquele dia de trevas

minhas vistas escureceram

deixei de lado os bons moços

e fui com ele adormecer


Aquele menino ali ao canto

que ninguém acreditava

que nunca poderia ser

pôde, enfim

florescer


Buquê!