É sabido que a teoria literária define o que é um texto literário e o que é apenas um texto. Para muitos estudiosos, considerar uma obra como literatura vai além de bom texto. A Literatura, com L maiúsculo, considerada como cânone, deve ter uma série de características que a transforma para além do texto, tornando-se arte, a arte da palavra.
Recursos estilísticos rebuscados, novas informações que demonstram que o autor é também um grande pesquisador são apenas algumas das características que podem ser encontradas em muitos dos textos que hoje são considerados cânones literários.
Entretanto, o sucesso de um texto não depende apenas do mesmo, sendo bem escrito. Para que um texto possa chegar ao patamar literário, ele deve trazer algo de novo, transformador para a sociedade. Para Antônio Cândido (CANDIDO, [1975]2002), o externo (social) é mais um dos elementos que desempenha um papel na constituição de cada obra literária, tornando-se, portanto, interno.
No Brasil, temos diversos exemplos de publicações artísticas que desempenham, também, um papel social, denunciando os conflitos existentes, como o racismo, a discriminação, o sexismo e etc. Um dos grupos que hoje mais faz sucesso dentro desta vertente, a literatura engajada, é o grupo Quilombhoje e suas antologias poéticas intituladas Cadernos Negros.
Contudo, dentro dos estudos literários ainda é limitado o estudo destes tipos de correntes, ligando a literatura com a militância política. Na área acadêmica, ainda é latente a discussão de que a literatura não deve ser engajada, pois perderia o seu rebuscamento interno, o seu conteúdo artístico. Neste sentido, vemos estudos que relacionam a literatura junto ao engajamento político em outras áreas, voltadas para a educação, por exemplo.
A literatura como engajamento político não é algo que surgiu apenas nos movimentos emancipatórios brasileiros. O Brasil, aliás, hoje passa por esse momento, mas muitos países já passaram por isso há mais de meio século. E, para muitos deles, os casos eram tão particulares que não existia uma discussão que pudesse diferenciar literatura como arte de literatura como militância. Elas estavam unidas, na luta pela emancipação desses países. Os movimentos de
libertação e os processos emancipatórios em África podem ser um exemplo.
Para muitos estudiosos, a arte é consoante à situação social. E, toda produção artística se desenvolve a partir, também, da consciência social de seu criador. Por conta disso, muitos africanos e afro-descendentes perceberam que poderiam fazer uso da arte para demonstrar a força de sua consciência pela emancipação africana. O Pan-africanismo é um exemplo, pois nele estavam muitos artistas, que também eram ativistas políticos.
Um dos maiores exemplos certamente é Leopold Sedar Senghor, poeta e ativista político senegalês. Senghor fez uso de sua figura como um símbolo de luta pela emancipação africana. Fazendo parte da elite de africanos que viviam na França, a partir de seus estudos literários começou a compor poesias. Nelas, pode-se perceber um forte espírito político em busca de uma identidade africana, contrária a já estabelecida pelos poderes coloniais. Exemplo disso em um de seus versos:
Escuta sempre mais
as cousas que as pessoas.
Ouve a voz do fogo,
ouve a voz da água,
escuta a do vento em soluços.
É o respirar dos ancestrais.
Leurres et Lueurs”, Birago Diop, in Le Dialogue, p. 19.
A busca pela ancestralidade africana, a busca pelo o que foi ocultado nos livros, nos escritos, estando apenas no imaginário africano, pela oralidade, é a busca de um espírito de luta africano, contra a imposição cultural europeia.
Este espírito de luta encontrou como fonte de alimento o conceito de Negritude (négritude – original do francês) de outro poeta, Aimé Césaire, de Martinica, junto ao poeta europeu J.P Sartre. Este conceito tornou-se uma bandeira de luta para esses autores.
A negritude é a maneira de buscar novos valores, valores negros. É uma busca identitária real pela origem humana, desconstruindo os valores europeus, recebidos pelos tantos séculos de colonização. Negritude é a maneira própria de ver o mundo, conhecendo suas raízes, seu real passado histórico. É o despertar da beleza negra, suas qualidades e suas potencialidades.
Este conceito, iniciado por Segnhor e Césaire, entre as décadas de 30 e 40 na França, logo encontrou adeptos em vários países africanos, influenciando muitos nomes influentes que lutaram por suas emancipações contra as potências europeias.
Percebe-se, contudo, que a literatura engajada, mesmo criticada até os dias atuais pelos estudos literários, tem fundamental importância para o desenvolvimento de uma consciência política para uma mudança social. A literatura, assim como outras vertentes artísticas, tem um poder de cativar, pela beleza estética, ao mesmo tento em que faz os sujeitos refletirem sobre o que o fizeram ser cativados. Este é um dos melhores mecanismos para uma transformação social, pacífica e bela.
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Obs.: Este é um dos textos que escrevi para o curso de pós-graduação na UFSCar, intitulado: Educação para as relações étnico-raciais. Em nenhum momento tento afirmar que a literatura seja, estritamente, engajada ou política. Apenas levanto alguns reflexões, que surgiram a partir das leituras de textos sobre Leopold Senghor, comparando com os textos de escritores afro-descendentes brasileiros e o preconceito da academia em rotulá-los como fonte artística apenas para os estudos culturais e não para a teoria literária.
Larissa Lisboa