terça-feira, 25 de outubro de 2011

Recuperação paralela

"Era uma casa muito engraçada"


Vinícius de Moraes



"Era uma casa nada engraçada"


Renan, grupo Inquérito


O boletim chegou à suas mãos, cravado de 10. Apenas um 9 em ciências que não o deixava muito contente. Vai esperar a professora, para saber por que não foi um aluno 10 naquele bimestre.


Sorrisos para todo lado. A professora dá três tapinhas nas costas:


- Bom trabalho! Será um grande homem!


Os outros também o parabenizam, inclusive os outros adolescentes.

Tem um certo respeito dentro da casa. Os caras acabam não mexendo com ele, porque sabem que ele é diferente.

- Pô, deixa o cara, esse vai ser Doutor. É o que dizem.


Durante as aulas, olho atento, boa argumentação, afobação e impaciência. Precisa de atenção o tempo todo, como se para provar para si que é possível mudar.


Cada atividade nova, lá está ele, seja música, teatro, poesia, dança... Seu espírito artístico aflora menos que seu espírito por mudança, mas, o esforço é a marca de seu talento.


Sempre que alguma autoridade chega, e a casa necessita da maquiagem, lá está ele, a representar o impresentável, orgulho pelo processo, recuperação cumprida.


Depois de 8 meses, recuperação cumprida, orgulho no rosto, sorriso estampado, enche o peito e sai à vida. O Doutor o espera.


É recebido com certa alegria pelo pai, que já arrumou um emprego de servente para ele. Meio período, poderá continuar com os estudos. Ele sorri.


Vai até a escola indicada e a secretária diz que deverá esperar algumas semanas até sua matrícula chegar.


Algumas semanas? Pensou. Como vai estudar até lá?


Sorriu um pouco menos, mas não desanimou! Como havia trazido os cadernos e livros que ganhara da casa, resolveu começar a estudar sózinho, revisando os materiais.


Recebeu, no início, algumas ligações da casa. Muitas delas ainda o parabenizavam e mostravam muito interesse pelo seu novo emprego. Só ele que ficava um pouco encabulado em contar, já que todos diziam que ele seria um Doutor e até agora só sobravam pratos e talheres sujos dos Doutores em suas mãos.


A situação já tinha se normalizado. Via pouco o pai e os irmãos estavam sempre na rua. Cansado de ficar sózinho, foi à procura de alguns antigos amigos. A comoção foi grande.


Parceiro...


...................


O boletim chegou à suas mãos, cravado de 10. Apenas um 9 em biologia que não o deixava muito contente. Procuraria a professora, para saber por que não foi um aluno 10 nesse bimestre.


Sorrisos para todo o lado. A professora dá três tapinhas nas costas, mas não diz mais nada.



De que valem tantos 10?