quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Do teu sangue

"Senhor, perdoai-os, porque eles não sabem o que fazem?"


O sangue corria por entre os dedos. A cada nova tentativa de fala do menino, ele voltava a cravar o punho avermelhado no pequeno rosto, desfigurando-o para, assim, silenciar o ato.

Quando tudo já estava calmo no andar de cima, pedi a um amigo uma toalha. Limpa a mão, enquanto olha para o corpo estendido ao chão, dizendo:

- Bandido...

Desce as escadas em passos firmes. E, como de súbito, ao topar com uma professora com os olhos arregalados no corredor, comprime o passo e sorri.

- Bom dia, querida! Está bonita hoje.

O sorriso é condescendente.

Ao fim do corredor, encontra a sala em que todos esperam por sua presença. Nela, vozes, pés correndo, canetas tocando a mesa, risos, abraços, afagos público, adestrados. Professores, coordenadores pedagógicos, assistentes sociais, psicólogos, seguranças e cozinheiros. Todos estão unidos para mais uma conversa sobre uma semana de eventos, onde farão palestras aos pais e alunos sobre a cultura de paz.

Ele senta-se ao lado de uma pequena professora, que o olha desconfiadamente. A psicóloga, a sua frente, o recebe com um largo sorrido, dizendo:

- Glória a Deus você chegou! Como demorava...

Todos riam.

Ao passo que a reunião seguia, com propostas de palestras sobre como conter a violência, apresentações musicais evangélicas e um grande café da manhã de integração, onde o coordenador dizia ser muito importante, pois os adolescentes precisavam confiar em todos, ele apenas segurava sua prancheta com muita força, enquanto olhava além do nada. Uma gota de sangue ainda derramava ao punho. Gota de cólera. Fechou as mãos entre as pernas e, novamente, voltou a sorrir.

A professora, que estava ao seu lado, não tirava os olhos nele. Porém, pouco disse a respeito de seu silêncio. Apenas escutava atenta às propostas, votava e dava sugestões do evento. A outra mulher, porém, cansada de se passar despercebida, esperou que vagasse um espaço entre ambos e sentou-se ao lado dele, a retirá-lo de seu tenebroso silêncio.

- Você tem filhos, Sidnei?

- Tenho. Tenho dois. Um menino e uma menina.

- Nossa... mas você é tão novo!

As outras pessoas, que estavam em volta, começaram a se interessar pelo assunto alheio. Trocaram algumas palavras sobre suas famílias, enquanto ele, apenas respondia secamente: Pai de família, marido há quinze, filhos de 14 e 9 anos.

Ouviu, então, uma pequena voz dizendo, ao fundo:

- Espero que estes não sofram com a medida...

Assustado, levantou as mãos como que a se render pela tragédia cometida. Quando procurou pela voz, não encontrou autoria. As pessoas a sua volta olharam espantadas. O que havia acontecido? Mas, logo o coordenador chegou com os bolinhos.

..................................

Depois de pouco mais de vinte e quatro horas trabalhadas, dobrando o serviço por uma falta, chega em casa exausto. Os dois filhos estão na sala, mas cada um está para si. A menina, mais velha, está tão entretida com as mensagens de celular, que nem percebe a presença do pai. O menino, no computador, com um grande fone de ouvido a cabeça, atrapalha até mesmo o som da TV ligada.

Ele ainda tenta um pequeno “oi” que sai abafado, mas sabe que é em vão. Enquanto passa pelos cômodos, sente-se como um estranho no ninho. Tudo em seu devido lugar, todos como deveriam estar, mas apenas ele, destoante de toda a mobília...

Joga a mochila no sofá e vai procurar a mulher, que está no quarto, terminando de se arrumar.

- Deixei todas as contas atrasadas ai em cima. Já são oito agora, fora as multas...

- Já sei de tudo isso. Poxa, mas é assim que você me recebe, depois de mais de um dia fora de casa?

- E você quer que eu te receba como? Falou com o seu chefe do atraso?

- Já disse pra você que meu chefe não tem nada a ver com isso. Firma tercerizada...

- É UMA BOSTA! É ISSO QUE É! Seu chefe nunca tem nada a ver... só não sei quem tem.

Agora, já são três meses consecutivos sem salário. A firma, que terceiriza o serviço para o Estado, não conseguiu cumprir o protocolo e agora cortou os salários de 15% dos funcionários, o que incluiu ele. Muitos deles já não vão ao serviço. Mas ele resolveu continuar, afinal, o que receberá quando tudo normalizar? E, além disso, o que há para se fazer em casa? Qual seria a sua função?

A mulher sai, despercebida, dizendo, já distante, que tinha feito um prato de comida que estava em cima do fogão. Mas ele não sente fome. Ele não senti nada. Apenas seu corpo, que dói.

Vai até o banheiro e vê que ainda há gotas de sangue em seu punho. Pega um frasco de álcool e começa a esfregar com voracidade as mãos. Tudo em vão. Quanto mais as esfrega, mais gostas de sangue surgem, algumas pequenas, outras grandes, coágulos de dor. Aos poucos, as gotas começam a se espalhar pelo braço. Ele se assusta e dá um grito!

Em poucos segundos, sua filha bate a porta.

- Tudo bem, pai?

Ele, ainda atordoado, diz:

- Não foi nada. Me cortei. Tudo bem, tudo bem...


Continua....