quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Solitários, mas solidários

Os fogos natalinos na Praça Arautos da Paz já iluminavam o negro da noite. De sua janela, Janaína observava a rajada de cores que assim surgiam. Vermelhos, azuis e amarelos, iluminando o coração de muitos campineiros na véspera do natal.

Janaína, porém, estava com o peito vazio. Nem as luzes, nem mesmo o natal iluminava sua vida. Sua mãe havia morrido há dois meses, ainda jovem, em conseqüência de um câncer, descoberto tardiamente. Não tinha pai, ou, pelo menos, nunca o conhecera. Filha única, de pouco contato com tios, primos e todos os outros parentes, devido à longa distância entre eles, o sul e o norte do país.

Estava certa de que sentiria latente a solidão assim que chegasse a época natalina. Foi, justamente, o que aconteceu. Lembrou-se de uma conversa com sua amiga Mercedes, órfã, em que esta dizia não gostar nem de natal e, muito menos, do dia das mães e pais. Lembrou-se, também, do dia em que estava em sua casa com a amiga, assistindo a um filme na TV, quando um comercial do dia das mães tornou-se o derradeiro horror da noite: Mercedes chorava compulsivamente, em meio aos xingamentos contra o comercial, a TV, sua mãe, que possivelmente a abandonara, etc. Janaína se lembrava que, naquele momento, mesmo com todo o clima de pânico e tristeza que pairou sobre sua casa, conseguiu sorrir, já que tinha uma mãe, uma boa mãe!

Agora, entretanto, Janaína não tem mais mãe. E talvez, pela primeira vez, possa entender melhor a dor da amiga. Resolve, então, ligar para ela, com uma idéia que havia surgido assim que o primeiro fogo de artifício reluziu em sua janela, como uma idéia que brotara de uma felicidade alheia...

- Mercedes, querida, está bem?

- Como haveria de estar? É mais um natal! O prédio todo está decorado e Armando viajou para a casa do pai.

- Então você está sozinha...

- Sim, e você? Não vai passar com alguém?

- Não. Não tenho ninguém, você bem sabe.

- Sei mais de mim do que de você...

- Mas, diga-me uma coisa, estive pensando em resgatar nossos amigos que estão, também, solitários. O que você acha?

- Parece bom. Mas, pra quê? Pra chorarmos juntos?

- Não. Justamente para não nos sentirmos sós.

E então, Janaína explicitou a amiga toda sua idéia, a procura de pessoas que estivessem na mesma condição que a delas. Procurariam pessoas conhecidas que estivessem sós, por motivos variados, e estas poderiam também convidar outras pessoas desconhecidas, na mesma situação. Um grande círculo solidário aos solitários surgiria, na esperança de que a solidão, mesmo que de forma superficial, não doesse tanto em uma época em que todos sorriem com o aconchego alheio.

Janaína e Mercedes fizeram uma pequena lista de conhecidos solitários. Talvez, pensavam, poderia surgir alguma solidariedade da parte deles. Lembraram de Joana, que tinha uma relação péssima com a família, devido a sua opção sexual; Carlinhos, que era divorciado e tinha duas filhas, já casadas, que sempre preferiam o natal com a “outra” família; Otávia, que perdera o cão há quatro meses e, em seguida, o namorado e Gustavo, que tinha uma enorme família, mas que odiava datas comemorativas, preferindo estar só.

Mercedes sugeriu que entrassem em contato com todos eles por email, pois, se a proposta fosse positiva, o círculo se expandiria, assim como um spam. Janaína, como não tinha uma boa relação com o mundo virtual, resolveu apenas escrever a carta para que a amiga fizesse todo o trâmite. Assim que terminou de escrever, leu o texto em voz alta a Mercedes:

- Escrevi assim: Um Natal Solidário aos Solitários!

Você, amigo querido, que está de saco cheio dos comerciais natalinos, da quantidade de pessoas inconvenientes com sacolas pelas ruas, dos fogos de artifícios que não representam nada, apenas uma luz que atrapalha a linda beleza de uma noite de verão, do mesmo Papai Noel, com toda aquela roupa quente e barba asquerosa e da alta nos alimentos, venha participar conosco de uma reunião diferenciada e descontraída, onde falaremos das mazelas natalinas, regada a bons vinhos e aperitivos.

Obs.: Tragam comidas ou bebidas.

Obs2: Nada de perus, arroz com nozes, castiçais vermelhos e presentes.

Obs3: Traje informal, sem formalidades!

Assim que terminou a leitura, Janaína olhou para Mercedes e ambas começaram a rir. Janaína, mesmo com a gargalhada e o tom descontraído do texto, não escondia em seu olhar uma profunda tristeza em pensar no natal diferenciado. Sentia uma leve nostalgia dos natais em que passava ao lado da mãe, vestindo-se a rigor, montando uma mesa farta, mas se esquecendo que eram apenas duas. A geladeira lotada até, pelo menos, os quinze primeiros dias do ano novo. Durante todos esses anos, os natais eram os mesmos. No entanto, como seria este próximo natal? Com amigos, apenas? Era difícil sorrir, ao pensar nesta possibilidade irreverente.

Seu sorriso, entretanto, começou a se exibir assim que Mercedes recebeu as respostas do email. Joana confirmou presença, junto à nova namorada. Carlinhos também confirmou, entretanto, disse que ficaria o tempo todo no celular, a espera de alguma ligação das filhas. Otávia levaria doces e o novo cachorro, que ganhara da vizinha, e Gustavo ainda não tinha respondido.

Com o passar dos dias, outros amigos, encaminhados a partir da primeira lista, foram confirmando presença. “Esta festa eu não vou perder”, “Vou adorar falar mal do natal”, “Nada melhor que saber que há pessoas no fundo do poço, assim com eu”. Assim, muitos novos amigos surgiam na lista de email, confirmando presença. Um círculo de solitários solidários se formava, ao passo que, no dia 24, a lista já contava com trinta pessoas!

Este será o natal mais festejado da minha vida, conclui Mercedes. Janaína pensa que, possivelmente, não assistirá a missa do galo no sofá, como fazia com sua mãe. Seu sofá será tomado por estranhos com copos de uísque, chorando pelos problemas familiares. Ou não, estranhos com copos de uísque que rirão deste acontecimento e não passarão sós, a espera de, apenas, uma ligação.

Na véspera da ceia, Mercedes chega poucas horas antes, para ajudar Janaína. Está com um vestido decotado vermelho, sobressaindo suas belas silhuetas. Janaína a olha e diz, num tom agressivo:

-Mas Mercedes, o que é isso? Os trajes não seriam informais?

- Mas você acha que eu vou perder a oportunidade de arrumar um namorado? Ainda mais que Armando foi viajar com o pai e estou sozinha em casa...

- Mas a idéia da festa não é, justamente, o contrário?

- Não, solitários SOLIDÁRIOS! Viu? Eu quero ser solidária a alguém!

- Sua boba!

Assim que a mesa estava posta, com castiçais brancos, uma toalha creme e alguns aperitivos, a campainha toca. Era Gustavo. Mercedes vai até ele, dizendo:

- Mas Gustavo, que contradição, você foi o único que não respondeu o email e...

- Fui o primeiro a chegar, eu sei Mercedinha.

- Mas que surpresa – Conclui Janaína.

- Sim, é verdade. Não tinha respondido por que odiei este clima de alegria que vocês construíram pelo email. Odeio listas...

- Típico da sua pessoa – Satiriza Mercedes.

- Além disso, não sabia se passava com vocês ou não. Fui até a casa da minha mãe, dei um beijo rápido e corri pra cá. Acho que por aqui estarei salvo!

- Salvo e bem servido! - Diz Mercedes, piscando para Janaína, que ri.

Com o passar das horas, os convidados foram chegando. Alguns acanhados, outros animados. Ao passo que às 23:45 já eram mais de trinta. Janaína olhava para cada um deles, rindo para si – Que natal irreverente!

Na hora da contagem regressiva, Carlinhos, com uma camiseta em que estava escrito “Papai Noel não existe!”, propõe que todos desejem um Feliz Natal à meia-noite e um, ao invés de meia-noite em ponto! Afinal, qual a diferença de um minuto para o nascimento de uma celebridade tão aclamada por tantos séculos?

Todos riem e aceitam a proposta. Assim que o relógio assinala meia-noite em ponto, os fogos da Praça Arautos da Paz recomeçam. Todos ficam em silêncio. Janaína, então, apaga todas as luzes do apartamento. Somente os fogos iluminam o espaço. A cada nova cor que surge ao céu, Janaína vê uma lágrima brilhar em cada olho amigo. Seus próprios olhos começam a lacrimejar e uma felicidade imensa chega até ela.

As luzes se ascendem. Já é meia-noite e um. Carlinhos grita: Feliz Natal, seus perdedores! E todos começam a rir. Entre abraços e afagos alheios, Janaína pensa na mãe e sorri. Está em casa!