quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Circo de Mentiras

De Capão ao Caldeirão, eles preferem a televisão.

Eu acreditei em tudo o que ouvi. Chorei por tudo o que me transformou. Mas me tornei manca e triste. O que fazer agora, meu deus, que as luzes se apagaram e a verdade é tão escura?

Certa vez, em uma aula na faculdade, um professor levou dois textos para que a sala pudesse discutir. O primeiro deles, um texto de Luciano Huck, publicado pela Folha de São Paulo, o outro, do escritor Ferrez. O texto de Huck era uma carta de descontentamento por um assalto, onde explicitava sua indignação como "cidadão paulistano", por terem roubado o seu humilde rolex no trânsito. O segundo, uma narrativa em intertextualidade com o primeiro texto, onde Ferrez criava a história do próprio assaltante do rolex, desde a sua situação social até o momento do roubo do bacana.

Ficamos excitadíssimos com a discussão. Falamos em mídia, apologia ao crime, o outro lado da moeda, a ignorância da burguesia brasileira, etc, etc, etc. Gostei muito da discussão e guardei os textos para que, um dia, quando me tornasse professora, eu pudesse fazer o mesmo com meus alunos.

Bem, tornei-me professora. Só esperava a oportunidade, então, para trabalhá-los com uma turma que fosse da periferia, ou que, sentisse na pele o capão pecado que tanto fala Ferrez. Um dia desses, senti que a oportunidade havia surgido: Uma turma de estudantes da periferia de Hortolândia, entre 15 e 25 anos, todos repetentes.

Na minha relex ignorância, pensava que aquele seria o melhor campo para plantar o meu próprio ódio ao discurso de Huck, que tanto me chocou pela sua futilidade e incoerência. Imaginava que eles sentiriam o mesmo que eu, assim que lessem o texto de Ferrez, em que dizia:

"Como alguém pode andar com algo no braço que dá pra comprar várias casas na quebrada?"

Como alguém pode? Como Luciano pôde? Como eu não posso? Por que nós não podemos? As mesmas perguntas que vieram em minha cabeça, assim que eu li pela primeira vez, imaginava que surgiriam nas cabeças dos alunos. Queria que o texto de Ferrez chacoalhasse a turma! Praticamente, que levantassem a bandeira contra tudo o que temos, tudo o que consumimos, tudo o que nos é "oferecido". Tudo...

Uma inoscência que, na verdade, não passa de uma ignorância, uma imaturidade da realidade que pairou sobre mim...

Fui à aula com os textos comprimidos ao peito. Coração pulsante. Era a hora da virada! O jogo ia virar! Eles iriam acordar do sono comum, mórbido, atual. Nós iríamos gritar! Com a minha sede de mudança, comecei a aula. Entreguei a eles o primeiro texto (Huck). Eles fizeram uma primeira leitura, depois fizemos uma leitura em conjunto e partimos para a discussão.

TODOS concordaram com Luciano Huck. Entenderam a sua indignação. Apresentaram, porém, certa dificuldade para entender o início do texto, em que o Best Seller diz, poeticamente:

"Luciano Huck está morto".

Eles perguntavam - Professora, o Luciano Huck morreu? E eu, no mais íntimo de mim mesma, gostaria de responder - adoraria, há tempos...

Bem, a discussão não foi muito diferente do que esperava. Afinal, a grande virada, a revolta, viria a partir do próximo texto. Pois então, entreguei o texto de Ferrez a eles. Enquanto liam, alguns fechavam a cara, outros riam, e eu, comendo a beirada da unha, contando os segundos para que acabassem, seguindo seus olhos, frase por frase, linha por linha...

Enfim, terminaram. Abri a discussão por eles. Não falei nada. Gostaria que eles começassem. O primeiro aluno, receoso, disse - Não gostei do texto. Não acho que a história do cara é pretexto pra roubar. Vendo a turma toda abanando com um "sim" a cabeça, outro finaliza - e eu acho que quando agente tem alguma coisa é porque agente trabalha muito pra conseguir. O Luciano trabalhou muito para conseguir comprar o rolex, por isso que ficou indignado.

Ainda meio zonza, me senti como um palhaço no meio do circo. Os alunos eram a plateia que ria das minhas piruetas e tombos. Os tombos, entretanto, era um grito desesperado de socorro, que ninguém ouvia...

Brinquei, dizendo que não foi o Luciano Huck que havia comprado o rolex, mas sim sua mulher (Angélica). Eles riram, mas continuaram, dizendo que na periferia só se é ladrão quem quer. Todo mundo poderia ser ladrão, mas eles decidiram estudar.

Olhei em cada um de seus olhos e percebi que eles ainda brilhavam. Eram os meus, na verdade, que já estavam apagados. Em cada brilho, havia uma frase de esperança, em que cada mundo particular melhorasse. Rolex, carros, casas com piscinas, casas com mar. Os olhos de um deles era o próprio mar. A imensidão de esperança. Enquanto o meu, nem um riacho a lacrimejar.

Esperança? Inocência? Por qual parte, a minha ou a deles? A quem devo ensinar a minha real tristeza em viver?
Leia os textos de Huck e Ferrez, em: