Em mais um episódio de minha brava aventura pelas aulas de Leitura e Produção de Texto no Estado, fui fazer uma visita à biblioteca da escola.
Tinha dito à diretora que sentia muito dificuldade em trabalhar com os alunos, pois a escola não me ajudaria com as cópias dos textos. Foi então que ela me direcionou à biblioteca para eu fazer uma pesquisa sobre os livros que estivessem disponíveis.
O local, mesmo pequeno, tinha um série de livros interessantíssimos para trabalhar em sala de aula. Entretanto, cada sala do Estado comporta, em média, 35 alunos. Então, precisaria de 35 livros iguais, ou no mínimo 17 para trabalhar em duplas.
O primeiro que encontrei foi um livro de contos, reunindo histórias escritas por cânones, como Guimarães Rosa e Machado de Assis. Achei interessante e os levei comigo. O segundo, um livro do, tão falado, Luis Fernando Veríssimo.
Sempre tive um pé atrás com esse cara. Não sei bem o motivo. Apenas não gosto e pronto! Longe de discutir sobre meus recalques quanto à sua obra literária, Veríssimo seria a última pessoa que recorreria para trabalhar em sala de aula.
Deparei-me com seu livro "Comédias para se ler na Escola". O título me agradou e o desenho também (Veríssimo sentado em uma mesa de aula, principiando um arremesso de aviãozinho de papel). O livro foi indicado pela Secretaria de Educação do Estado, o que, na verdade, não quer dizer nada!
Peguei o livro e fui para as aulas. Assim que acabaram, entrei no ônibus e comecei a lê-lo. Logo na primeira frase, da primeira história, já me injuriei: "Uma família de classe média alta". Bem, pensei, já não tem relação alguma com o meu público-alvo, meus alunos, que são moradores de periferia. Mesmo assim, continuei a leitura.
A primeira história conta sobre a conversa de um menino e seu pai, após a festa de aniversário do pequeno. Eles comentam sobre os presentes, até chegar a discussão sobre uma espada que o garoto ganhou e toda a trama se inicia. Isso me fez lembrar uma "música", e coloco entre "aspas" porque não é bem música, mas um relato do Mano Brown do Racionais Mcs sobre o dia 12 de Outubro, dia da criança.
Ele relata que, em uma discussão sobre este dia com um menino, o mesmo conta que recebeu de dia das crianças um tapa na cara da mãe. Quando Brown pergunta o porquê, o menino diz que ele a xingou porque ela não deu nada de presente para ele neste dia.
Imagino que muitos dos meus alunos tenham ganhado muitos tapas na cara e não apenas no dia 12 de outubro. Sendo assim, como trabalhar com um texto deste tipo, que não tem relação alguma com a realidade deles?
As próximas histórias não são diferentes. Temos uma em que a protagonista é uma filhinha de papai que vai para Paris e não sabe, nem ao menos, fazer um arroz; crianças que deixam de lado uma bola pra brincar com seus super videogame, etc. E aliás, é de se perceber muito fortemente em seu texto a importância do papel da empregada doméstica, ou da babá. Em muitas das histórias elas estão presentes (não como protagonistas, obviamente!).
E então, eu me pergunto: Comédias para se ler em qual escola? Será que o autor, ou quem selecionou os textos, tem idéia de que vivem no Brasil? Será que esse povo sabe que existem diferentes tipos de escolas neste país? E a tal da Secretaria de Educação do Estado? Será que ela tem idéia do improvável trabalho que este texto geraria em uma sala de aula de uma escola pública?
Não quero que meu caro leitor entenda que eu sugiro para esta escola apenas histórias relacionadas com seus fatos cotidianos, suas vivências. Mas, convenhamos, o que eu proporia para meu aluno, levando histórias como essas?
Talvez, se eu quiser propagar um sentimento de revolta, ainda maior, seria interessante usá-lo. Eles veriam que a "classe média alta" vive fora da realidade do país, e infelimente, comanda o seu Estado.
Neste sentido, creio que o público-alvo de Veríssimo seja outro. Aliás, tenho uma ótima sugestão de bons leitores para ele: Os Tucanos, pois são bicudos, hipócritas e avoados.
Obs: Nem eu mesmo me lembrava, mas já tinha escrito outro texto sobre uma crônica de Veríssimo, e, pasmem, continuo na mesma linha de raciocínio:
http://larissalisboa.blogspot.com/2007/05/verssimo-s-avessas_7561.html
2 gritos:
Vc tem um feitiche pelo verissimo hein!
Saudades de vc...
Eu compartilho essa aversão pelo Luís Fernando Veríssimo, Larissa. E gostei muito do que você escreveu aí sobre o disparate. Penso em levar essa sua crônica pros meus alunos. Muito bom.
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